Era um feriado de meio de semana qualquer em São Paulo e minha comparsa Chloé e eu estávamos basicamente chutando merda (claro que essa expressão classuda tem razão de existir) nas calçadas da Rua Augusta, à procura de algum cartaz de filme suficientemente interessante para detonar todo o tédio que só quem passa por um dia garoento sabe o que é. Claro que assistir Melancolia, de Lars Von Trier, com seus nove minutos eternos em slooooow moooootionnnn e em trilha sonora clássica sobre a colisão entre dois planetas, o fim do mundo e tal, não é exatamente o jeito mais… preciso de se matar qualquer tédio. Não mesmo, não é assim que se faz. Mas nessas, entre hipsters, mendigos, madames com pugs, mais gente chutando merda e casais intelectuais o bastante para assistir Melancolia de propósito, havia um sebo. Um verdadeiro sebo, numa galeria em frente a uma loja de roupas góticas, com um vendedor que usava boina e camiseta vermelha com estampa do Che Guevara. Um autêntico sebo. E lá dentro, amigos, estava abandonado um livro, à venda pela quantia módica de dez reais, um livro chamado O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, escrito por um cara chamado Tom Wolfe.
A pessoa que atende pelo nome de Tom Wolfe é um dos meus ídolos nessa vida. Estadunidense da Virgínia, ele nasceu há 81 anos em um dois de março – o que não diz muita coisa num dez de abril, mas se você gosta de signos, saberá que ele é um pisciano e, de novo, isso pode não dizer muita coisa. O que interessa mesmo é que ele é um dos pais de um tal de new journalism e, resumidamente, isso significa que ele acreditava na ~liberdadeliteráriacriativamalandra~ no jornalismo. Seu primeiro artigo de sucesso nessa pegada era chamado Lá vai, Vrum! Vrum! aquele aerodinâmico bebê floco de tangerina cor de caramelo que, traduzindo, era uma pauta sobre a febre dos carros personalizados nos EUA. Você só sabe realmente o que é uma reportagem i-n-c-r-í-v-e-l quando lê um dos caras do new journalism.
(Espero que a essa altura você já tenha se convencido de que não tem como não amar o cara, mas vamos continuar.) O que interessa ainda mais é que em 1968 — aquele ano <3 mágico — Wolfe publicou um tal de The Electric Kool-Aid Acid Test. A proposta básica do livro é uma biografia de Ken Kesey, um cara aparentemente chutador de merda que resolve se submeter a testes em universidades com aquilo que hoje conhecemos como LSD. E aí, amigos, as portas da percepção de Kesey se abriram e tuuudo mudou. Ele é famoso por escrever um livro chamado Um Estranho No Ninho e, se você está se achando espertinho porque já viu o filme com Jack Nicholson, saiba que que seu queixo irá se desgrudar da cara e espatifar no chão quando ler mais sobre o pai da obra, Kesey, e todos os Festivos Gozadores >>> aka as pessoas que se jogam nessa onda com ele.
Wolfe vai fundo na descrição dos personagens que hoje conhecemos genericamente como ~hippies~. “Somos jovens demais para sermos beatniks e velhos demais para sermos hippies”, Kesey disse. Suas viagens e bad trips, suas (não)expectativas sobre o mundo,a intersubjetividade espiritual que rolava entre as mentes chapadas dessas pessoas e muito, mas muito mais que isso. Eu mesma estou por volta da página 125 (a viagem vai até 429), mas já estou tão mergulhada nisso tudo (e há tanto tempo sem postar) que acho que você é capaz de arrumar uns 20 minutos no escritório e ler esse post.
Um pouco do que eu chamo carinhosamente de Ácido For Dummies está nesse trecho aqui do filme Across The Universe (podemos falar mais em outro post). Você pode assistir com a consciência de que o Bono é uma alegoria de Kesey, que esse ônibus existiu mesmo (inclusive com a palavra Beyond escrita nele, em vez da original Furthur), que o motorista desse ônibus era mesmo Neal Cassady (podemos falar mais em outro post também) e que a mansão em Nova York onde eles chegam no fim do clipe também existiu, e pertencia a uma família chamada Hitchcock que não recebeu muito bem o povo da Califórnia, não.
E, pra entrar um pouco no livro, se liguem na página 27 logo abaixo. Aos poucos, você lê e lê e lê e é engolido pela linguagem pura do Wolfe, e se sente como se estivesse chapado, só que não está, e se sente como uma pessoa de sapatos lustrosos chutando merda em calçadas – só que talvez não seja isso…
Mas minha mente está devaneando. Tenho que fazer força para ouvir porque estou fascinado por uma caixinha de plástico com uma escova de dentes e pasta de dente que O Contestador prendeu debaixo de um dos polegares. Fica balançando diante dos meus olhos em contraposição às mãos do Contestador… Que curioso bando de malucos. Esse sujeito com estrelas de general na camisa está fazendo uma espécie de sermão de vésperas a respeito dos pecados da humanidade – e uma escola de dente! – mas é claro! – ele escova os dentes depois de cada refeição! – escova mesmo. Depois de cada refeição, apesar de estarem vivendo aqui nessa garagem, como ciganos, onde não tem água quente, não tem banheiro, não tem cama, exceto dois colchões nos quais a poeira, a sujeira, a umidade e o mofo vinham a ser uma coisa só, tudo misturado com o próprio estofo, e eles deitavam nos andaimes, no ônibus, na traseira da caminhonete, as narinas tomadas pelo bolor.
- … mas quer saber? As pessoas estão começando a enxergar a verdade através da rede de jogos que cobre o mundo. Não só os hippies e essa turma, mas todo tipo de gente. Pega a Califórnia, por exemplo. Sempre existiu essa pirâmide…
Aqui, O Contestador traça no ar a forma de uma pirâmide com as mãos e eu observo, fascinado, a caixa de plástico com a escova de dentes rebrilhando enquanto desliza por uma das faces da pirâmide.
- … estão transcendendo toda essa bosta – afirma O Contestador, e sua voz é séria, limpa e doce como a do orador de uma cerimônia de formatura na faculdade, como se estivesse apenas dizendo oxalá no ano vindouro os formandos possam também recordar nosso lema: “transcender toda essa bosta”.
… uma linda linha de luz ao longo da caixa de plástico, uma firme cintilação refletida do passado, do lugar de onde O Contestador viera. Agora estou de novo fazendo a mesma coisa, ah, aquela aprazível coceira, eu forjei uma metáfora, um pedaço do bosta transcendente, a partir dessa caixinha de escova de dente…
- Transcender toda essa bosta…


