Sobre tênis, flores e gatinhos

Segunda-feira típica em São Paulo, um frio londrino às sete e meia da manhã que, às nove, já se abre em um céu azul, clima ameno e passarinhos felizes. Os céticos, como eu, erram a roupa quase que diariamente e só podem ver nisso piada de gosto duvidoso feita por ninguém.

Nove e meia no escritório, entre um trabalho e outro, uma checada nos links do dia. Do que as pessoas estão falando hoje? Entre gatinhos, futebol, pessoas com saudade do fim de semana (quem nunca?), vejo um link com imagens do cowboy Woody, inesquecível personagem da animação Toy Story, feitas por um artista famosinho na rede Instagram conhecido como @santlov. Ó só:

Veja mais aqui: http://panquecaatomica.com.br/fotos-inusitadas-do-woody-do-toy-story/

 ~Pensando com o coração~, é bonitinho ver Woody assim, como se fosse gente. A questão é: que tipo de gente somos? Fiz essa pergunta a mim mesma e não gostei de uma face da resposta que encontrei. (A resposta mesmo, a gente nunca encontra…). Somos um bando de jovens encantados, atores em solitários monólogos apresentados para quem quiser ver – especialmente nós mesmos – em cartaz em um lugar virtual que, virtualmente, não existe. Idolatramos tênis, zumbis, gatinhos, bacon e todo tipo de junk food, grafite, fazemos qualquer pose para fotos que vamos tirar sozinhos usando ângulos e filtros criativos. Tudo por um pouco mais de amor, ainda que traduzido ridiculamente na forma de um like a mais…

Apesar de, em algum momento, ter de fato aprendido a cantar algumas músicas de Britney Spears e Backstreet Boys – uma junk food do mundo musical: você acaba deslizando -, eu não consigo tirar da cabeça a sensação de que sempre pensei que algo estava errado. Não, não errado, mas incompleto. Como uma alma pensante que vibra intensamente, sem saber, porém, em quê pensar ou para onde ir.

Ler O teste do ácido do refresco elétrico, saga sobre a qual comentei semana passada e segue apaixonada por esses dias ainda, não está ajudando. Isso que chamam de contracultura, as cores e sons dos anos 1960, sempre exerceram sobre mim um fascínio que não sei explicar. Claro que amar aquela “gente maravilhosa”, como eles diziam, aos 15 e aos 23 anos tem diferenças. Hoje é possível enxergar nos Festivos Gozadores e nos hippies em geral muitos jovens de classe média sem perspectiva que se lançaram a condições às vezes precárias de vida e sinapses entupidas de droga. É possível desromantizar, claro. Mas, ainda assim, por que persiste essa estranha nostalgia, essa complicada intuição de que, anos atrás, de fato havia um ideal a se conquistar – ainda que esse ideal fosse um estado de espírito indefinível, a ligação com o cosmos ou a próxima bad trip – e, hoje, estamos cada vez mais cegos para os desejos do espírito? O corpo não; esse templo é idolatrado. Tanto, que os desejos do espír… Quê?

Por que, apesar de toda a loucura daqueles anos, segue esse luto triste, de um choro sem lágrimas, pela morte de um sentimento cujo nome era… Já esquecemos?… Não, espere… Era inocência? É, acho que sim. Uma inocência só vista em fotos descoloridas, artigos científicos, filmes sem foco. Sorrisos chapados e inocentes assim, distorcidos. Vestígios de uma juventude que, ao contrário e exatamente igual a todas, queria ser jovem para sempre.

Breve historinha de Lucimar Pereira

Lucimar Pereira tem umas pernas curtas e grossas incrivelmente ágeis. O tronco é parrudo e inspira uma falsa ideia de… despreparo físico. “Eu gosto é de comida forte”, ela dispara, com um riso despreocupado, a qualquer um que lhe diga para emagrecer. O colesterol, na verdade, ela se gaba de manter a taxas saudáveis. Ponte de safena? Não, senhor. Um cunhado morreu na mesa de operação. 42 anos, tão novo, coitado, infartou. Mas com Lucimar não ia ser assim. Sempre que ela comia uma fruta, pensava nisso. Em comer mais fruta, não só de vez em quando. E suas boas intenções costumavam se desmanchar no vento a cada vez que seu potente nariz farejava o aroma da deliciosa coxinha da padaria perto do trabalho. Ai, essa coxinha! Dia sim, dia não, Lucimar fraquejava e comia a coxinha da padaria perto do trabalho, mesmo já tendo um bom café da manhã. “Não vim pra esse mundo pra passar vontade!”, ela disfarça a culpa.

Na fatídica manhã de sete de fevereiro de dois mil e doze, um trágico acidente aconteceu. Lucimar havia saído do metrô e caminhava para o serviço pelas mal cuidadas calçadas do Butantã quando sentiu a sola da sandália rasteirinha pisotear algo viscoso, que pareceu explodir num desengonçado “Ploft!”. A ligeira Lucimar ergueu seu pé direito e viu, ai, que tristeza!, os melequentos restos mortais do que era uma suculenta lagarta verde. “Ploft!” e feito cena de cinema, uma memória começou a tomar forma na cabeça de uma Lucimar imóvel, fazendo um 4 com o pé direito erguido com uma lagarta verde morta grudada na sola da sandália. Abobalhada na calçada, a Lucimar agora tinha seis anos, no sítio da tia na Bahia tinha só seis anos, e uma lagarta linda de estimação chamada Macarrão. Aí veio aquele fatídico dia em que seu primo Bill pediu seu pedaço de bolo de fubá e ela não deu. O vingativo Bill ameaçou esmagar a Macarrão, Lucinha (era Lucinha aos seis anos) achou que era blefe e desafiou. “Ploft!”, morreu Macarrão na sola do pé de Bill. E foi naquele dia que Lucimar tomou a decisão de nunca mais ter bicho nenhum, nem cachorro. Mas ai! “Ploft!”, quem diria? Ela mesma um dia pisou em uma linda lagarta verde.

“Que tristeza é essa, Lucimar?”, perguntou o porteiro da firma quando ela chegou. Sem levantar os olhos, ela se contentou em soltar um “essa vida judia da gente” e tratar logo de trabalhar.

É você, Macarrão?

Apogeu e queda do inenarrável Beto Escudeiro

Rapaz, essa história é sensacional, não dá nem pra acreditar. Eu vi acontecendo entre um drinque aqui, outro ali (ou mais que isso) e vale a pena contar pra vocês.

Beto Escudeiro era o cara que até eu queria ser. Seu pai fez fortuna com uma fábrica de alfinetes e por isso ele não trabalhava e podia viver cada dia de um jeito, sem a malvada rotina a qual eu e você estamos fadados para todo o sempre. Teve um mês, não lembro se março ou abril, que ele mal voltou da Tailândia e já se meteu numa viagem no perrengue de um ônibus pela América do Sul (sim, o cara tinha grana, mas gostava de ~aventuras~). Além disso, o Beto não era mais um daqueles babacas e mimados. No auge dos seus vinte e poucos anos, ele devorava livros e era um profundo conhecedor de música. O Beto tinha uma coisa que a gente não tem, amigo: tempo. Tempo pra pensar, tempo pra escrever, tempo pra pra poder procrastinar sem a menor possibilidade do peso na consciência.O Beto também tinha outra coisa que entre nós, meros mortais, tá cada vez mais escassa: dinheiro. Dinheiro pra não precisar escolher entre beber em um boteco ou comer em um lugar legal, dinheiro pra fazer o que desse na telha.

Se tinha um cara legal pra sentar e tomar umas, era o Beto. Tudo bem que eu sou um falido e só dele pagar a conta já era demais, mas ele também era gente fina. Sabe? Aqueles caras que tem uma história melhor que a outra e que escutam você contar as suas também, por mais que a sua vida pareça tão sem graça perto da dele. A turma toda chorou de rir o dia que ele contou de um porre homérico com duas irmãs siamesas em Hong Kong, sério! Diz ele que elas eram unidas apenas pelo quadril então não era tão estranho. Tem também a clássica, o dia que um brasileiro barbudo conseguiu invadir uma festa em Hollywood e dar um peteleco na orelha do cara que fez o Frodo e gritar VIRA HOMEM RAPAZ, o que é o sonho de todos nós. Dizem que nessa noite histórica ele pegou a Megan Fox, mas daí eu não posso confirmar.

Tava tudo muito bom, tudo muito bem, mas o Beto começou a ficar estranho. Imagine você que o danado tava reclamando da vida! Logo o Beto! Reclamar do quê? Lamentava a vida desregrada. Não ter hora pra acordar, não ter obrigações. Chegou ao cúmulo de dizer que não se sentia útil na sociedade. Cabisbaixo, queria mudar pro nosso lado, o lado da proletariado. A massa falida. Nós. Aí teve esse dia memorável. Chegou no bar com uma pastinha embaixo do braço, anunciando que tinha arrumado um emprego. No duro, emprego de assistente contábil numa empresa de raios X industriais. De segunda a sexta, das oito às cinco. Julgamos ser uma moda passageira e até acreditamos nisso durante um mês, com o Beto passando radiante apenas pra cumprimentar a gente na porta desse mesmo boteco que estou agora, voltando suado do trabalho com a pastinha embaixo do braço.

De repente, não mais que de repente (Vinícius vai me perdoar por essa citação pagã), os expedientes do Beto começaram a durar mais, ele não parava para dar oi, mal acenava com a cabeça. Um outro companheiro de copo, encontrando-o na rua, pediu um livro emprestado, mas o Beto, com olheiras e um olhar de peixe morto, disse que não tinha mais livros. Logo o Beto, um cara tão diferente da gente, imagina! Aos poucos, nós deixamos de vê-lo e, depois de um tempo, foi como se ele não fizesse mais falta. O Beto virou meio que uma lenda, no cúmulo de algumas pessoas até duvidarem que ele existiu mesmo e, mesmo agora, que eu nem sei quanto tempo faz isso tudo, nunca mais tivemos notícia dele.

Isso até hoje, que um passarinho verde veio me contar o que aconteceu. O Beto, na ânsia de ser gente como a gente, virou funcionário do mês, do ano até. Não queria mais sair do escritório. Dormia lá, não tirava a combinação calça+camisa social+gravata de firma. Até falaram pra ele que sua alcunha muito combinava com o ambiente do escritório. Ai, ai Beto. Até que um dia, não se sabe se por obra dos sinistros raios-x, ele foi fagocitado pela sua baia. Se você, meu caro, não sabe o que é ser fagocitado, darei outro exemplo. Aconteceu com ele o que aconteceu com a tripulação do Black Pearl, sabe? O navio macabro do Piratas do Caribe? Só que com ele foi pior. O Beto deixou de viver.

Saiu da vida para virar uma cadeira de escritório. Logo o Beto!