Já era noite, embora o céu insistisse em continuar claro nessa São Paulo do horário de verão. Quase que exatamente doze horas depois de sair de casa, eu estava de volta. Ultimamente, a vida tem sido assim: acordar já aos tapas contra a vontade de continuar dormindo, ir para a academia (pois é, quem diria), tomar um banho, experimentar um pico de bom humor e acreditar que a disposição vai perdurar por todo o dia e, então, ser derrubada por um sono terrível no vai-e-vem do metrô. Chegar com a cara amassada no trabalho, desamassar a cara e trabalhar. Durante o almoço, me perco divagando silenciosamente sobre o que farei quando chegar em casa. Terminar um livro? Começar um livro novo? Resistir à não-programação da TV e botar um filme no DVD? Escrever?
Nope. O que existe entre a hora do almoço e a chegada em casa – o que inclui pouco mais de uma hora no transporte público novamente – quer dizer, o que quer que seja isso, vai me quebrar. Uma dor de cabeça, uma sedutora vontade de colocar os pés para cima. Chego em casa, quase doze horas depois de ter saído, e vejo meus planos feitos durante o almoço escorrerem pelo ralo junto com a água do banho. Lembro, então, de um provérbio inglês que um amigo ensinou:
Thinkers don’t work and workers don’t think
(Pensadores não trabalham e trabalhadores não pensam)
É meio de partir o coração, deprimir e irritar, né? Antes que a patrulha dos defensores do bom gosto, bom costume, boa cha-ti-ce me venha com um “COOOOMO assim você tá falando que a classe trabalhadora é burra” ou “COOOOMO assim você tá falando que os pensadores são vagabundos”, já adianto:
Essa interpretação é muito rasinha. O assunto não é inteligência ou vontade de trabalhar atrelados à condição social. Não. O ponto que esse ditado realmente cutuca na minha cabeça é: aonde queremos chegar? Desconsiderando completamente o 1% da população que não precisa trabalhar e tampouco faz questão de pensar, trabalhar é preciso. Nossa existência material depende do trabalho e do pão que ele compra. Mas será que as rotinas não se mostram tão opressivas que chegam, de fato, a limitar nossa capacidade de pensar? Não que as situações cotidianas não exercitem o cérebro; temos diariamente situações e problemas a serem resolvidos e, para isso, pensamos. Mas estou escrevendo aqui sobre um outro pensar; sobre deixar os pensamentos livres, soltos no ar. Isso me parece tão vital quanto o trabalho – mas para nossa existência espiritual.
A importância de não fazer merda alguma
Essa canção do Oasis tem sido uma espécie de válvula de escape há já alguns anos para mim. Quer dizer, sem uma mente alegremente produtiva no ócio, nossos corpos vão, aos poucos, se tornando ociosos na hora de produzir. É como ser enterrado vivo todos os dias e resgatado no último suspiro, pouco antes de… dormir. Eu acho, sim, esses segundos passados na rede (deitados no chão, na cama, debaixo da árvore…) maravilhosamente criativos e cheios de vida. Mas chegamos aos dias em que é preciso arrumar um espaço na agenda para ficar de pernas para o ar.
Como, afinal, resolver esse enigma? Qual a medida certa entre trabalho e ócio? Eu ainda não encontrei a resposta. Estou tentando arrumar um tempo, sabe? Pra escrever no blog e pensar a respeito…
I’ll be fineIf you give me a minuteA man’s got a limitI can’t get a life if my heart’s not in it.

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