Soprado pelo vento

A sociedade é uma merda. Um grande circo em que todos desempenhamos papéis, cumprimos contratos e obedecemos regras de convívio social e boa vizinhança. Baseados pelo “tenho que fazer”: tenho que amar meus pais, tenho que fazer faculdade, tenho que ter um emprego em horário comercial, quase todos os adolescentes do mundo já tiveram sua fase rebelde. Mas poucos levaram esse pensamento a algo além de matar aula na escola e começar a fumar e beber.

Você leitor, espero, já sabe do que (ou quem) eu tô falando: de Christopher Johnson McCandless, essa criança fofinha aqui:

Chris era um playboyzinho inteligente e questionador demais. Viu os pais brigando sempre e se preocupava com os problemas do mundo, como a falsidade e a pobreza. Crendo que a natureza guardava a beleza e pureza (eza, eza e eza, desculpa) do espiríto incorruptível e 100% true, passou a fazer longas viagens sozinho, até que, ao se formar com louvor na faculdade, resolveu sumir no mundo de vez. Abandonou seu carro, queimou (literalmente) dinheiro, conheceu hippies, velhos, funcionários do McDonalds e rodou o oeste por dois anos até chegar até o Alasca para, segundo ele mesmo deixou escrito: a maior e última aventura. A batalha climática para matar o falso ser interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Pesado pra alguém de 20 e poucos anos né?!

McCandless se rebatizou de Alex Supertramp e marcou a vida de todos que o conheceram com seus papos nada comuns sobre o sentido da vida, tudo isso tomando white russian, o drink favorito do nosso Grande Lebowski. No Alasca, as coisas não foram tranquilas e ele acabou morrendo de inanição em 1992, dois anos depois de ter largado tudo. Dessa história maluca, nasceram duas belezuras: o livro e o filme Into The Wild (ou Na Natureza Selvagem).

Meu primeiro contato foi com o filme, que eu vi primeiro motivada pelo irresistível combo Emile Hirsch + Sean Penn + Eddie Vedder (é até absurdo falar isso agora que a história do Chris me cativou de um jeito tão arrebatador que tô com medo de não fazer jus à ela nesse post). Depois de vê-lo umas mil vezes, finalmente li o livro. E agora vem a parte peligrosa.

Fuga e Liberdade Absoluta

Chris se inspirou em vários autores que pregavam o escape dos problemas e a busca pelo auto conhecimento através da natureza e simplicidade, como Jack London e Thoureau. Ele achava que as relações humanas eram constantemente deterioradas pela mentira e que só na natureza poderia encontrar paz de espírito e felicidade. Mais tarde, ele descobre que não faria sentido ter aquilo sem companhia, como diz a célebre frase que ele anotou em uma página de Tolstoi: Happiness (only real when shared).

O próprio autor do livro Into the Wild, Jon Krakauer, também teve seus momentos impetuosos e, após cagar para a faculdade, foi escalar um pico do Alasca sozinho com 23 anos. Outro caso que também é citado no livro é o de Everett Ruess. Esse é tão roots que meteu as caras no deserto na década de 30! Ele também escrevia e deixou muitas cartas apaixonadas e poesias por aí. Para marcar sua presença junto das pinturas rupestres dos cânions americanos, ele se batizou de Nemo, personagem também com tendências de isolamento criado pelo Júlio Verne em Vinte Mil Léguas Submarinas.

Ou seja, todos eram criativos, sensíveis e inspirados em outros que escreveram justamente sobre isso. O que nos leva a crer que quem não se adapta, está meio ferrado. Mas isso a gente já tá cansado de saber né?

Esses caras meio malucos serviram de inspiração pra muita gente e tem vários fóruns na internet com pessoas contando seus anseios de chutar o balde e ir viver longe desse lugar ~aprazível~ que é a nossa sociedade. Muitos refazem a viagem, outros (eu me encaixo nessa) ficam planejando como seria deixar tudo pra trás, mesmo que seja pra uma hora depois refazer de novo o mesmo caminho para voltar do trabalho, o mesmo caminho para ir, as mesmas contas pra pagar…

Como bem acabou de me dizer Fabi Schiavon, sair do convívio social às vezes é muito mais fácil do que ficar dentro dele.

Classificação

6 thoughts on “Soprado pelo vento

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